terça-feira, 1 de dezembro de 2009

essa tua porta blindada



Tenho saudades de chegar a casa contigo e de cozinhar para ti. Sei que provavelmente tu não sentes saudades dos meus cozinhados, quanto muito do meu arroz, algo de que sempre me pude gabar, ou então que sempre pensei que podia mas que se calhar não posso. Lembro-me das nossas fantásticas horas de almoço e lembro-me de cada traço teu que com o passar do tempo foste riscando. Quando te conheci parecia que tinhas dentro de ti uma porta blindada que nem tu própria sabias onde tinhas metido a chave para deixar alguém entrar. E com o passar do tempo, juntas fomos forçando a fechadura até que conseguimos entrar. Ainda hoje me pergunto, se a chave não continua dentro dessa porta, se foi alguém que um dia também a conseguiu abrir e se esqueceu da chave lá dentro, impedindo que tão facilmente alguém conseguisse voltar a entrar. Mas esse alguém esqueceu-se que para uma chave existir, alguém a tem de fazer. E que para uma porta travar um caminho, alguém lá a tem de meter. Eu não sei quem foi que fez as duas coisas, mas sei que pelo menos consegui atravessar a porta. E apesar de não saber se sou eu que vou encontrar essa chave, quero ajudar-te a encontra-la. Porque aquela porta um dia também vai precisar que alguém a mude, e quando outra vier, não podes deixar que a chave se perca. Para só puderes deixar entrar quem queres, e para quem quer entrar (para ficar, não só para ver o que existe por detrás dessa porta) não tenha de arrombar a fechadura nem de persistir com a porta. Quem construiu essa porta dentro de ti, fez-lo por outros motivos. Mas hoje sei que se não fosse essa porta talvez hoje não eras quem és, e eu nunca tinha tentado arrombar essa porta. Não sei se foi a tua força de viver ou se foi a minha vontade de ficar, ou se não foram as duas coisas. E cada vez que olho para trás e me lembro dos abraços ausentes, das conversas longínquas e dos passos presos aos passado só me lembro de uma coisa: querer ficar. Porque acredites ou não a minha vontade de ficar sempre foi a mesma, e sempre quis marcar presença, e se o fiz, foi porque tu deixas-te, e se tu deixas-te foi porque tu também gostavas da minha presença. Sei que não fui eu que te dei forças para seres quem és, sei que foste tu própria, com a tua vida, que o decidis-te fazer. E espero que nunca te arrependas de o ter feito. Ao inicio ainda era tudo tão restringido, mas quando a fechadura dessa porta se cansou e se abriu, fiquei com certezas que não queria só ver o que estava dentro de ti, mas sim, ver quem tu tens dentro de ti. Mostras-te que és capaz de me abraçar quando consegues ver que esse gesto precisa de ser feito. Que és capaz de apesar da distância, não te esqueceres de mim. Por pouco tempo que agora não estamos juntos, sei que tu também te preocupas em aproveita-lo ao máximo. Seja comigo deitada numa cama, e tu ali sentada ao pé de mim; seja num estabelecimento público a comer crepes; seja no teu sofá a ver filmes; onde quer que seja sei que a confiança, o carinho, o riso e os sorrisos, os abraços e as brincadeiras, os desabafos e as conversas constroem a nossa amizade. Amizade que se talvez não fosse aquela porta, nem as tentativas de arrombar a fechadura, nem a força que tens dentro de ti não fazia hoje de ti uma pessoa tão importante para mim que marcou presença e continua a marcar presença na minha vida, como mais que uma companhia diária, com quem passar o tempo da minha vida. Não é que fosse tempo desperdiçado, porque já nessa altura aprendi muito contigo e tu própria já marcavas mais presença do que qualquer outra pessoa que apenas estivesse na minha vida para passar o tempo da minha vida. Hoje tenho a certeza que um dia essa porta vai precisar de ser mudada, mas que não pode deixar de existir, e espero que nessa altura me dês uma chave para eu poder entrar quando quiser, ou que guardes uma chave para me deixares entrar quando achares que é a altura ideal, e espero que essa porta não deixe existir, para me continuar a sentir presente na tua vida constantemente e para não deixares entrar e sair toda a gente que se limita a matar a curiosidade de saber o que existe dentro desse teu cantinho.

Para a minha T.
(que fez anos ontem)

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